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Cree que su tarea es iluminar la historia a contrapelo.
Walter Benjamim
Quero descobrir e revelar a face obscura,
aquela que foi varrida dos compêndios de História
Jorge Amado
1. Considerações iniciais
O presente trabalho pretende analisar a construção da nação na contemporaneidade a partir dos discursos performático e pedagógico no corpus Iararana, de Sosígenes Costa. Pressupõe-se que, na obra elencada, a escrita da nação seja pautada no tempo disjuntivo, contemplando os discursos pedagógico e performático, instaurando uma nova escrita da nação na pós-modernidade.
A análise será feita com base na teoria dos Estudos Culturais, sobretudo, nos conceitos de Homi K. Bhabha (1998) —tempo disjuntivo, povo, discursos pedagógico e performático—, que serão trabalhados, concomitantemente, à sua aplicabilidade no corpus literário.
Primeiro será estabelecida uma relação entre a figura mitologia do deus Kronus e os tempos que esse deus mítico representa, com os conceitos de tempo historicista e disjuntivo de Bhabha. Em seguida, serão expostos os conceitos de discurso pedagógico e performático, que emergem, respectivamente, dos tempos citados, bem como os conceitos de povo pertencentes a cada um deles. A obra literária servirá de base para elucidar o referencial teórico escolhido.
2. Kronus e o tempo duplo e cindido na escrita da nação moderna ocidental
Na mitologia grega, o deus Kronus utiliza uma dupla simbologia para expressar o domínio sobre a passagem do tempo. A primeira remete a uma temporalidade linear, horizontal simbolizada pela ampulheta que carrega em uma das mãos. O senhor do tempo também é representado, portando, uma serpente, em forma de círculo aberto. Simbologia que remete a uma temporalidade aberta, infinita e, por isso, distinta daquela proposta linear e cronologicamente determinada.
Ambas as imagens —a ampulheta e a serpente— remetem a temporalidades distintas. A imagem da ampulheta simbolizaria um tempo horizontal, linear, cronologicamente marcado, um tipo de historicidade fixa e determinada. A passagem do tempo, representada pela areia que cai, remete ao evento que essa temporalidade controla como algo com princípio e fim, previamente estabelecidos. A serpente, cujo corpo representa um círculo aberto, no qual cabeça e cauda jamais se encontram, propõe uma outra forma de olhar sobre a temporalidade. O círculo aberto, cabeça e cauda sem princípio ou fim, marcam um processo temporal, no qual acontecimentos não podem ser congelados em sua fixidez. Os acontecimentos fluem num processo temporal cuja mobilidade não permite que sejam fixados numa sucessão cronologicamente datada, em princípio e fim para os eventos.
A teoria dos Estudos Culturais, particularmente o teórico indiano Homi K. Bhabha, propõe a re-escrita da história da moderna nação ocidental, considerando questões acerca da temporalidade da escrita. À semelhança daquela passagem do tempo, representada pela ampulheta na mão do deus grego, a escrita da nação baseou-se num tipo de temporalidade historicista, horizontal, um conceito de tempo no qual acontecimentos são apresentados em sua historicidade fixa. O evento, com princípio e fim determinados, converte-se numa sucessão de ações presas a uma historicidade linear: “a equivalência linear entre evento e idéia, que o historicismo propõe, geralmente dá significado a um povo, uma nação ou uma cultura nacional, enquanto categoria sociológica empírica ou entidade cultural holística”. (Bhabha 1998:200).
Nesse conceito de temporalidade, estaria contemplado como evento histórico apenas aquele acontecimento que correspondesse à idéia previamente fixada. A nação, na narrativa temporal do historicismo, se converte num único olhar sobre o acontecimento, como sendo capaz de representá-lo em sua amplitude. A escrita da nação, nessa temporalidade homogênea e vazia, relega os eventos não contemplados pela idéia às bordas e margens da escrita da nação.
Escrever a nação a partir de suas margens e bordas exige um outro tipo de temporalidade, distinto daquela linearidade proposta pela visão historicista e pelo holismo cultural. Essa escrita da nação, a partir das margens, propõe que se considere temporalidades diversas e múltiplas, levando em conta as escritas que foram silenciadas pelo conceito de comunidades imaginadas. Uma temporalidade na qual as diversas manifestações culturais sejam consideradas, um tempo sem início nem fim, a exemplo da emblemática serpente na mão do deus Kronus, cujo movimento circular permite uma visão em totalidade do corpo representado “espaço sem lugares, tempo sem duração” (Althusser apud Bhabha, 1998:202).
Na temporalidade disjuntiva da pós-modernidade, como proposta por Bhabha, a escrita da nação requer um tipo de duplicidade ambivalente, que contemple os eventos e narrativas que ficaram à margem da escrita monológica do historicismo e de seu tempo homogêneo e vazio; um tempo ambivalente que move a escrita da nação para outro lugar, no qual fragmentos e retalhos de significação cultural são incorporados à narrativa da nação.
Menino, este bicho veio da Oropa
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Veio da Oropa o danado descobrir este rio (...)
Veio nadando e chegou neste rio. (437)
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Ele fez guerra com espingarda aos cabocos do mato
E venceu os cabocos e escorraçou o Pai-do-mato
E ficou no lugar dele e se chamou dono da gente
Mas o caboco com ódio o chamou Tupã-Cavalo
Só mesmo na Oropa pode nascer um bicho assim (438)
E os índios foram obrigados a servir Tupã-Cavalo (441)
A escrita ambivalente da nação —o pedagógico e o performativo—, constrói uma outra temporalidade narrativa —a temporalidade disjuntiva—, baseada na cisão entre a temporalidade continuísta e cumulativa do pedagógico e a estratégia repetitiva, recorrente do performativo. Essa escrita dupla da nação permite que sejam contemplados outros aspectos de um determinado evento histórico —a construção do herói nacional e o heroísmo do colonizador, vistos a contra—pêlo e de forma irônica, desmistificam o discurso monológico da nação. É nesse processo de cisão, que a escrita ambivalente torna-se o lugar de escrever a nação.
O tempo disjuntivo, ao revelar outras vozes narrativas, questiona o conceito de nação homogênea traduzido na metáfora do muitos como um, que universaliza as experiências e move-se para outro topos no qual as experiências individuais são valorizadas como integrantes de uma coletividade.
3. A ambivalência da nação
A palavra nação deriva do verbo latino nascor, que significa nascer. A invenção histórica da nação, enquanto Estado político, deslocou o termo povo, utilizado para se referir às pessoas que nasceram num mesmo lugar. Para Homi K. Bhabha, o conceito de povo
não se refere simplesmente a eventos históricos ou a componentes de um corpo político patriótico. Ele é também uma complexa estratégia retórica de referência social: sua alegação de ser representativo provoca uma crise dentro do processo de significação e interpelação discursiva. Temos então um território conceitual disputado, onde o povo tem de ser pensado num tempo-duplo; o povo consiste em “objetos” históricos de uma pedagogia nacionalista, que atribui ao discurso uma autoridade que se baseia no pré-estabelecido ou na origem histórica constituída no passado; o povo consiste também em “sujeitos” de um processo de significação que deve obliterar qualquer presença anterior ou originária do povo-nação para demonstrar os princípios prodigiosos, vivos, do povo como contemporaneidade, como aquele signo do presente através do qual a vida nacional é redimida e reiterada como um processo reprodutivo (1998:206).
Nessa visão, o povo, como um conceito de massa homogênea, aparece enquanto estratégia retórica de persuasão, que tem como fim a construção pedagógica de uma coesão social – muitos como um. Contraditoriamente, o povo, no discurso performático, é representado enquanto sujeito da nação, aquele que a constitui e que está inserido no processo de constante atualização de uma vontade de convivência.
Era cavalo da Oropa com feição de mondrongo.
Veio da oropa o danado a descobrir este rio. (Costa, s.d., 33)
Tudo isso que aqui vês dando flor e dando fruto
Fui eu que plantei com escravo nagô.
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As almas dos índios é que me disseram
Tintim o que esse passou. (ibdem, 99)
A alma do mato
Contou essa história
Lá dentro da roça
no toco do pau (ibdem, 100)
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