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O tempo disjuntivo, ao revelar outras vozes narrativas, questiona o conceito de nação homogênea traduzido na metáfora do muitos como um, que universaliza as experiências e move-se para outro topos no qual as experiências individuais são valorizadas como integrantes de uma coletividade

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De margens e bordas: a contra-narrativa da nação em Iararana

por Gisane Souza Santana

 

Dessa maneira, o conceito de povo é uma peça fundamental de articulação dos discursos. Partindo da literatura produzida por colonizados e colonizadores, Bhabha discute a narração da nação através de discursos que considera híbridos e ambivalentes. Apresentando diferentes tradições de escrita, o autor enfoca seu estudo na cisão da narrativa historicista, representativa do povo, enquanto presença histórica a priori, linearmente contada, e a narrativa do tempo não-linear que incita uma dialética entre diversos momentos históricos da cultura sempre no instante presente. Através dessa proposta de análise, Bhabha trabalha dois conceitos: discurso pedagógico e discurso performático.

Todo o esforço empregado em reunir a nação como uma uniformidade, costurando tecidos históricos tradicionais para expressar a acumulação do discurso progressista de um todo resulta no historicismo, no conceito de pedagógico, que, por sua vez, “funda sua autoridade narrativa em uma tradição do povo [...] encapsulado numa sucessão de momentos históricos que representa uma eternidade produzida por autogeração” (209).

Esse conceito envolve o anonimato do coletivo em função do todo, tomando o geral como representativo de um território. As fronteiras espaciais funcionam enquanto agentes legitimadores da tradição de um tempo exterior.

Veio da Oropa o danado descobrir este rio (...)
Veio nadando e chegou neste rio. (Costa, s.d, 437)
E Tupã- Cavalo brocou a mataria
E onde havia bananeira do mato
Plantou na sombra e na umidade umas sementes
Que molhou com querosene para o grilo não comer
E disseram: é carrapicho!
E as sementes nasceram e se viu que era cacau. (idem, 438)

O tempo de escrita da nação, no discurso pedagógico, é linear, ou seja, é um tempo homogêneo que não permite a transparência das fissuras do presente, das vozes minoritárias, transformando a comunidade numa representação horizontal do espaço. Na temporalidade pedagógica, o discurso unificador das vozes dominantes, torna-se uma escrita narcísica na qual o todo da nação é representado metonimicamente pela parte que escreve a História oficial.

Nessas escrita narcísica, o processo de construção da nação, é derivado apenas do trabalho do europeu, branco, cujo processo ‘civilizatório’ é responsável pelo desenvolvimento da nação.

Por isso, o tempo pedagógico é marcado pela idéia de coesão social no presente —muitos como um. Tal temporalidade define os critérios políticos da memória, que unificam, através do discurso identitário, as diferenças da sociedade.

Se o discurso do nacionalismo articula um tipo de narrativa que privilegia a coesão social, Bhabha, ao contrário, procura pensar a nação a partir de suas margens - os conflitos sociais e as vivências das minorias. Assim, o referido autor pensa a nação a partir de suas descontinuidades; trata-se de uma recusa da narrativa monolítica da nação.

O segundo conceito trabalhado por Bhabha —o performático— é característico das contra-narrativas. Isto porque resulta da tessitura dos retalhos descartados pela narrativa pedagógica. Esses fragmentos tematizam o particular, uma visão que não oferece continuidade discursiva ao projeto nacional como um todo. São silenciados, porém permanecem presentes, aptos a desorganizar as estratégias ideológicas que atribuem à nação uma identidade essencialista:

É a partir dessa instabilidade de significação cultural que a cultura nacional vem a ser articulada como uma dialética de temporalidades diversas —moderna, colonial, pós-colonial, ‘nativa’— [...] sempre contemporânea ao ato de recitação. É o ato presente que, a cada vez que ocorre, toma posição na temporalidade efêmera [...] (Bhabha 2003:215.).

Esse diálogo temporal ocorre Iararana, pois as obra reúne fragmento dos diversos momentos históricos referidos por Bhabha, sempre na ocasião presente. A cisão provocada pela escrita ambivalente da nação questiona o historicismo, cuja premissa de uma suposta correspondência linear entre evento e idéia relegou às margens toda e qualquer História que não estivesse contemplada no conceito de comunidade imaginada da nação.

Fato semelhante ocorre no poema Iararana ao apresentar a articulação dos retalhos (etnias, línguas, versões para os fatos etc.) que ainda não são inteiramente comportados pela narrativa tradicional. A voz de personagens étnicos regionais, através da fala dos mitos, intensifica o caráter contra-narrativo de tornar opacas as “fronteiras totalizadoras - tanto reais quanto conceituais” (Bhabha, 211), que passam a ser imaginadas com base na contemporaneidade. Quando Romãozinho canta o coco da taruíra, Sosígenes Costa exemplifica a voz de um personagem social brasileiro exibindo sua impressão sobre o colonizador, muitas vezes, diluída pelo discurso histórico tradicional.

A filhinha da mãe-dágua
Vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
Lagartixa descascada
Lagartixa taruíra
Caquende papai-vovô (COSTA, s.d., 45) (grifo nosso).

Menina laranja com ar de raposa
E de pata-choca danada de runhe.
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Iararana puxou ao cavalo-marinho,
Não puxou à mãe-d’água que é aquela beleza da boca do Bu.
Iararana cresceu e tocou a judiar (Ibid., 60).

A apropriação, feita por Sosígenes, de um arcabouço de termos da língua tupi para descrever o colonizador pelo olhar do colonizado retoma o tempo de escrita das outras vozes do nacional, as minoritárias. Este é o aspecto contra-narrativo de Iararana, o aspecto da heterogeneidade cultural.


Considerações finais

A análise da teoria dos estudos culturais, aliada à das obras literárias, mostrou-se relevante porque permitiu contemplar uma outra temporalidade de escrita da história, baseada em suas fissuras, performances vividas na clandestinidade porque não representadas na temporalidade vazia do pedagógico. O tempo performático, ao deslocar o conceito de povo para os limites entre o discurso totalizador e as ações conflituosas no interior da nação, abala verdades eternas e auto-geradoras de si mesmas e inscrevem, nesse tempo cindido, vozes silenciadas, culturas de margens e outras narrativas presentes no espaço da nação.

É possível afirmar que a temporalidade continuísta, a pedagógica, garante a homogeneidade, na medida em que faz alusão a um passado supostamente comum a todos. Já a temporalidade da performance permite que os subordinados intervenham no processo de significação e alterem as representações dominantes. Assim, a escrita da nação jamais conseguirá abolir a diferença, uma vez que as contra-narrativas surgem no nível performático.

 

 

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