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Recriar o momento do nascer, dar forma à gênese de si, poeticamente, é a maneira encontrada por Ferreira Gullar de fundar seu mundo, o mundo no qual viverá, um mundo sacralizado pela ancestralidade mítica criada para si e por si próprio, em um ato de fundação de si mesmo.

 

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Ruptura e consciência do ser no mundo na poesia filosóficas

por Laísa Fernandes Tossin

 

É sobre a condição expatriada que Ferreira Gullar filosofa em seu Poema Sujo, escrito durante o período mais difícil de seu exílio, na Argentina, em 1975, quando acuado pelo medo e só, ele se jogou em direção de seu próprio eu. Carente de referenciais que lhe dessem estrutura emocional e psíquica, encontrou seu lugar de existência nas memórias de infância e adolescência passadas na cidade de São Luís do Maranhão.
           
O poeta e filósofo apresenta-se, em seu primeiro verso, através da repetição do adjetivo turvo, duas vezes turvo, irreconhecível, tosco à visão ou quase invisível. O homem que não reconhece a si, incapaz de perceber sua existência.

turvo turvo
a turva

É, também, um adjetivo comumente utilizado para determinar a aparência da água, e indica-nos água de aspecto leitoso, embaçado, não a água que se bebe, cristalina e inócua, mas a água fértil da qual brotam plantas, nascem vermes. A água que nos remete ao líquido amniótico preso ao seu invólucro orgânico e protetor.
           
A evocação do útero e a subseqüente  sensação de compressão e expulsão incitada nos versos que se seguem

mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
( ou quase )
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas

leva-nos ao entendimento do momento primeiro, do nascimento, da passagem do escuro para o claro, do nada para o ser, da morte para a vida, o início da vida do indivíduo como tal.
           
Em uma acepção menos primordial da imagem poética, poderíamos entendê-la como o início do processo de autoconsciência do indivíduo como ser. A descoberta do ser/estar no mundo e a tentativa de compreender-se dentro do enigma da vida.
           
Recriar o momento do nascer, dar forma à gênese de si, poeticamente, é a maneira encontrada por Ferreira Gullar de fundar seu mundo, o mundo no qual viverá, um mundo sacralizado pela ancestralidade mítica criada para si e por si próprio, em um ato de fundação de si mesmo. Para viver, é necessário que um espaço real exista para o homem, não um espaço físico, mas um espaço imbuído de realidade, da realidade inerente daquele homem: o poeta, que se encontra deslocado (exilado) de seu ambiente natural e não possui com o ambiente que o circunda intimidade suficiente que traduza sua origem, pois ele não nasceu fisicamente em Buenos Aires, porém, metafisicamente.
           
A fundação do mundo real se torna necessária pois, somente, através da diferenciação do espaço amorfo, homogêneo, do espaço significativo, “do ponto fixo”, orienta a experiência, logo, o viver. Assim, a experiência do espaço profano se opõe à experiência do espaço sagrado, possibilitando a orientação da vida, “a revelação de um espaço sagrado permite que se obtenha um ‘ponto fixo’, possibilitando, portanto, a orientação na homogeneidade caótica, a ‘fundação do mundo’, o viver real.”(1)
           
Então, para que o homem deslocado possa tornar-se real, também ele precisa ser criado, imagem e semelhança de si mesmo, recriado e resacralizado em seu próprio corpo.(2)

Meu corpo

que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa
deitada
barriga, pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

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(1) Mircea Eliade. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

(2) Idem. Página 83.

 

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