Cartas - José de Anchieta (1534-1597)

O Brasil conheceu um período colonial que, formalmente, se estendeu do início do século XVI até sua independência, na primeira metade do século XIX. Neste período, incontáveis eventos contribuíram direta ou indiretamente para a formação do país como nação politicamente independente, autonomia que contribuiria, paulatinamente, para uma conformação cultural própria

 

 

 

 

Assim, no plano literário, é possível, por exemplo, compreender o advento do Romantismo entre nós, durante o século XIX, como uma autêntica ruptura de conceitos e padrões estéticos até então vigentes, a despeito de algumas "dívidas" estéticas que ainda mantínhamos com Portugal e que, logo em seguida, passamos a ter com a França. Mas no âmbito da expressão formal, por exemplo, os cânones lingüísticos que vigoravam acabaram sendo solapados pela fúria renovadora de um Alencar, consolidando uma nova expressão literária no país. (4) Assim, com Alencar e sua geração, começa a se consolidar no Brasil as bases para a formação de uma expressão literária autenticamente nacional. (5)

Evidentemente, não se pode medir, com precisão, o grau de eficiência alcançado pelos românticos no seu intuito de fundar uma tradição literária definitivamente nacional. Sabe-se, inclusive, que os objetivos concretos de instituição de uma identidade a partir de uma ruptura cultural, idealizados pelos românticos, só se efetivariam no século seguinte, com os modernistas (6). Isto se deve, entre outras coisas, à fragilidade da reação que os românticos desencadearam contra os cânones lingüísticos lusitanos, por um lado; e, por outro lado, ao fundamento extremamente idealista sobre o qual assentou a imagem do homem e do meio defendida por aqueles. Basta atentar para a mitificação do universo indianista de concepção claramente rousseauniana, que acabou por se tornar a pedra de toque dos poemas nativistas de um Gonçalves Dias ou dos romances indianistas de um Alencar, durante o mesmo século.

De qualquer maneira, a gênese dessa transformação ainda se situa entre os nossos mais célebres românticos, o que faz também do Romantismo, senão uma estética visceralmente comprometida com a ruptura, ao menos um eficiente pólo irradiador de tendências estéticas renovadoras. Neste sentido, não nos parece demasiadamente arriscado considerar o nosso Romantismo literário uma escola comprometida com os anseios de renovação que, na época, contaminavam a atmosfera político-social do país, devendo emergir na história da cultura nacional como uma estética efetivamente ligada a certa tradição da ruptura que, afinal de contas, comporta a maior parte das literaturas latino-americanas de então.

Desse modo, a busca da origem de nossa literatura pode ser percebida, primeiramente, entre os românticos, que ansiavam por um referencial para o próprio ideário artístico nacional, em que não faltavam traços de singularidade literária: descrição da natureza tropical, heróis honrados, reafirmação da identidade nacional. (7)

É verdade que tal ruptura ter-se-ia forjado um século antes, seja por meio da política, com as incontáveis rebeliões nativistas e anti-colonialistas a que assistimos no Brasil, seja por meio de uma literatura comprometida com um ideário iluminista, manifestando as primeiras tentativas de se criar, em solo pátrio, uma consciência autenticamente nacional (8). Apesar disso, é somente a partir do século XIX —com a independência política, mas também com o alargamento da consciência de uma maior autonomia cultural— que a literatura deixa de ser reflexo difuso da realidade nacional, para compor um patrimônio capaz de dar ao país —como sugerimos a princípio— um lastro identitário.

A crítica literária e a identidade nacional

Foi Machado de Assis, nosso maior literato, quem inaugurou —em fins do século XIX— uma discussão mais lúcida acerca de nossa identidade cultural, por meio da literatura, quando reconhecia na produção estética de sua época —a despeito do exagero da cor local e do nativismo— um "instinto de nacionalidade" que podia ser interpretado como "sintoma de vitalidade e abono de futuro", dando por fim "fisionomia própria ao pensamento nacional". (9)

A discussão fez escola, e, já nas primeiras décadas do século XX, o problema da identidade cultural brasileira era discutido em termos de emancipação literária por José Veríssimo que, em sua célebre História da Literatura Brasileira (1916), inaugurava uma reflexão sustentada pela conjunção entre unidade e autonomia:

"a literatura que se escreve no Brasil já é a expressão de um pensamento e sentimento que se não confundem mais com o português, e em forma que, apesar da comunidade da língua, não é mais inteiramente portuguesa. É isto absolutamente certo desde o romantismo, que foi a nossa emancipação literária, seguindo-se naturalmente à nossa independência política. Mas o sentimento que o promoveu e principalmente o distinguiu, o espírito nativista primeiro e o nacionalista depois, esse se veio formando desde as nossas primeiras manifestações literárias, sem que a vassalagem ao pensamento e ao espírito português lograsse jamais abafá-lo. É exatamente essa persistência no tempo e no espaço de tal sentimento, manifestado literariamente, que dá à nossa literatura a unidade e lhe justifica a autonomia". (10)

Essa capacidade de síntese e clareza de idéias, aliada à absoluta relevância dada por José Veríssimo a critérios que equacionavam o social e o estético na consideração da cultura literária nacional, fez de sua crítica uma das mais lúcidas do século passado. (11)

No excerto transcrito, percebe-se claramente a preocupação do autor em mobilizar não apenas conceitos de extração política (a independência, o nacionalismo), mas também de natureza estética (nativismo, língua), a fim de conformar uma espécie de teoria da emancipação literária brasileira, a marcar originalmente nossa identidade nacional.

Apesar da reconhecida autonomia de uma expressão literária autenticamente brasileira, Veríssimo já assinalava —a exemplo de Machado de Assis, quase meio século antes— uma incômoda "tendência localista", a permear a produção estética nacional, fato que teria gerado uma não menos incômoda ausência de "comunicabilidade" entre nossos escritores, criando-se assim uma literatura de castas, excludente e provinciana. (13)

Num diapasão mais moderado, o eminente crítico paraense reconhecia, contudo, ser a literatura regional —quando liberta de "preconceitos bairristas", desfeita de "arrebiques e posturas literárias" e buscando ser "superiormente espontânea e sincera"— expressão correta de nossa independênca estética e cultural (14).

 

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