A paisagem estabelece uma relação peculiar com a cultura brasileira: a imaginação nela desenhou sinais e índices de identidade, como marcas do tenso diálogo entre a racionalidade hegemônica e a expressão do particular. Articulador desse diálogo, o intelectual procura ler nos sertões, rios e florestas os fragmentos cristalizados de memória cultural que, como ruínas, agem, simultaneamente, sobre o cotidiano dos homens brasileiros e sobre a tarefa do intérprete da cultura.

 

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Paisagem e identidade: rede de imagens / Paisaje e identidad: red de imágenes

por Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo

 

“O tropical não pode ser correto. A correção é fruto da paciência e dos países frios; nos países quentes a atenção é intermitente; (...) O estilo, nesta terra, é como o sumo da pinha, que, quando viça, lasca, deforma-se, e, pelas fendas irregulares, poreja o mel dulcíssimo, que as aves vêm beijar; ou como o ácido do ananás do Amazonas, que desespera de sabor, deixando a língua a verter sangue, picada e dolorida (...) se há um escritor capaz de incorporá-lo a uma literatura nascente, como é a nossa, imprimindo-lhe direção salutar, (...) esse escritor é o autor d' O Mulato , em cujas páginas (...) vai derrramando todo o luxurioso tropicalismo desta América do Sul”. (Araripe Jr.,1960:70-71).

Como uma afiada lâmina de dois gumes, a proposta que inventa a paisagem para a solução do dilema, tenso e angustiante, do intelectual brasileiro, acredita num viés de inclusão no paradigma da universalidade dos sistemas de pensamento moderno, mas reafirma a exclusão, ao selecionar os argumentos inerentes à estrutura de poder que confina o local num lugar geopoliticamente inferior.

A imagem do homem do campo forjada pelo cientificismo projetou a miséria e a doença sobre o indivíduo, sem relacioná-lo às condições sociais: seu abandono, desqualificação e, portanto, a ausência de perspectivas explicavam-se por fundamentos biológicos e raciais. Logo, se o romântico silencia o homem no cenário paradisíaco, o naturalismo culpa-o pelas ruínas do paraíso. Apesar de protestos de intelectuais como Manoel Bonfim que alertava “Só é verdadeiramente fértil, a terra semeada pelo trabalho inteligente” (1939:210), ao resíduo romântico de interpretação da terra e do homem foram acrescidos os dados cientificistas. Justificava-se, dessa forma, o alijamento de enorme contingente de brasileiros, ditos desqualificados tecnicamente, da construção da nação progressista e transfere-se tal poder aos imigrantes.

A síntese desse processo pode ser vista na bela imagem elaborada por Monteiro Lobato em Urupês, que à fantástica natureza insere desânimo, lassidão infinita, solidão, dor, após uma inteligente e criativa seqüência de episódios irônicos que esvaziam os fundamentos naturalistas sobre terra e homem.

No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas. Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele no meio de tanta vida, não vive... (Lobato, 1967:291-292).

Arrancar a imagem estereotipada, alienante, balsâmica ou temível da paisagem, incrustada no fluxo contínuo da tradição constitui um dos muitos desafios para os poetas e romancistas, das primeiras décadas do século XX.

Interessado em uma releitura da paisagem e, conseqüentemente do homem, Euclides da Cunha viaja pelo país para identificar a imagem do brasileiro, perdido num paraíso há muito dissipado, e o escritor registra sua descoberta da terra e constata “olvidamos a terra; e os esplendores do céu, e os encantos das paisagens (...) entregamo-los numa inconsciência de pródigos sem tutela, à contemplação, ao estudo, ao entusiasmo, e à glória imperecível de alguns homens de outros climas” (Cunha, 1995 a:209). Aponta, além disso, o olhar contaminado de racionalidade européia que desenhou a paisagem brasileira, decalcando nela traços nostálgicos, de paragens alheias e distantes.

Nas suas viagens pelo Brasil, constata a crueza da miséria e abandono das terras e dos homens, diversa da construção estética que mesclou, arte e ciência, pitoresco e sublime, na construção da paisagem: “O caipira desfibrado, sem o desempeno dos titãs bronzeados que lhe formam a linha obscura e heróica (...) deixa-nos apreensivos, como se víssemos uma ruína maior por cima daquela enorme ruinaria da terra.” (Cunha, 1995 a:209).

No entanto, o que move o intelectual Euclides da Cunha é a ruína, ou fragmento cristalizado de memória cultural, deixada pela literatura, e pelos letrados – estudiosos, escritores, críticos e viajantes ilustrados - no imaginário brasileiro acerca da paisagem cujo ápice está na imagem do Amazonas que lhe provoca, de imediato, “ ao revés da admiração ou do entusiasmo(...) um desapontamento.”

...como todos nós desde mui cedo gizamos um Amazonas ideal, mercê das páginas singularmente líricas dos não sei quantos viajantes que desde Humboldt até hoje contemplaram a Hylae prodigiosa, com um espanto quase religioso - sucede um caso vulgar de psicologia: ao defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo tempo prefigurada. Além disto, sob o conceito estreitamente artístico, isto é, como um trecho de terra desabrochando em imagens capazes de se fundirem harmoniosamente na síntese de uma impressão empolgante, é de todo em todo inferior a um sem-número de outros lugares do nosso país. (Cunha, 1995 b:249).

O sofisticado projeto estético-político de elaboração de identidade e memória de cultura é produto da construção de pensadores e literatos que, em contrapartida, enreda o próprio intelectual. Desconstruir a poderosa rede de imagens cristalizadas, que orientam o cotidiano dos brasileiros, requer do crítico e pensador uma reeducação do olhar, para a terra e para o homem.

Já é bastante conhecida a incursão pela cultura brasileira feita pelo mais famoso personagem de Lima Barreto, o “Policarpo Quaresma”, (Lima Barreto, 1956a) que empreende uma viagem em direção à riqueza e exuberância da terra simbolizada, no romance, pelas aventuras do personagem num sítio, ironicamente chamado de “Sossego”, local, segundo o narrador, que “não era feio, mas não era belo”. “Quaresma”, autodidata e muito lido e sabido em cousas brasileiras, às imagens paradisíacas de referência à terra acrescenta os recursos cientificistas de interpretação e análise. Integrou às sólidas noções de Botânica, Mineralogia, Geologia e Zoologia o aparato técnico e instrumental necessários para comprovar a prodigalidade da terra. Será necessária a visita de Olga -a afilhada do protagonista de Triste Fim de Policarpo Quaresma ao sítio “Sossego”– com sua lucidez, para provocar uma reflexão crítica primeiro junto ao leitor e, depois, iluminar as noções do padrinho sobre pitoresco, terra, homem e trabalho no campo, auxiliando sua aquisição de conhecimento crítico.

Há, no entanto, no romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá , de Lima Barreto, um personagem pouco conhecido, intitulado pelo narrador de “historiador artista e coerente à preocupação de desmistificar o conteúdo estereotipado que orientou, por tanto tempo, o olhar para a paisagem. O “historiador artista” realiza uma escavação abaixo de nosso nível de visão convencional com a finalidade de redescobrir a força dos elos que unem homem e natureza, pelos vínculos da memória, existente sob a superfície. Assim, da cena banal de observação de um jardim desenvolve-se uma interessante reflexão sobre cultura, arte, literatura: esta, promovendo ao indivíduo a consciência de si mesmo e da realidade que o cerca. O ponto de partida para tal reflexão é o olhar de estrangeiros, contaminado de valores e princípios que simplificaram a diversidade da paisagem, do homem, dos saberes.

A esse tempo, passava, olhando tudo com aquele olhar que os guias uniformizaram, um bando de ingleses, carregando ramos de arbustos -vis folhas que um jequitibá não contempla! Tive ímpetos de exclamar: doidos! Pensam que levam o tumulto luxuriante da mata nessa folhagem de jardim! Façam como eu: sofram durante quatro séculos, em vidas separadas, o clima, o eito, para que possam sentir nas baixas células do organismo a beleza da senhora -desordenada e delirante natureza do trópico deCapricórnio!... E vão-se, que isto é meu! (Lima Barreto, 1956 b:42)

Se, por um lado, a reflexão do narrador Augusto Machado revela o conteúdo da estereotipia cultural, por outro, supera a visão maniqueísta para o estrangeiro. Mostra-nos o texto literário o duplo processo, na ordem do imaginário, que literatura e história constroem juntas, em torna da palavra que expressa a idéia que fazemos de nós mesmos, do país, da paisagem.

Logo me recordei, porém, dos meus autores - de Taine, de Renan, de M. Barrès, de France, de Swift, e Flaubert - todos de lá, mais ou menos da terra daquela gente! Lembrei-me gratamente de que alguns deles me deram a sagrada sabedoria de me conhecer a mim mesmo, de poder assistir ao raro espetáculo das minhas emoções e dos meus pensamentos. (Lima Barreto, 1956 b:42)

Ao escavar camadas de lembranças que coexistem com rios, matas e belos céus, o “historiador artista” constrói a crítica do olhar da tradição –romântica ou naturalista– produtora de uma rede de códigos culturais, para a percepção da paisagem na história brasileira.

Paisagem, como memória de um presente que foi, permanece como ruína, uma síntese paradigmática de tempo e espaço, na perspectiva benjaminiana; como forma espacial não possui uma autonomia de comportamento, mas guarda a autonomia da existência. Isto lhe assegura, segundo Milton Santos, “uma maneira original, particular de entrar em relação com outros dados da vida social” (Santos, 2002:187).

E a paisagem estabelece uma relação peculiar com a cultura brasileira: a imaginação nela desenhou sinais e índices de identidade, como marcas do tenso diálogo entre a racionalidade hegemônica e a expressão do particular. Articulador desse diálogo, o intelectual procura ler nos sertões, rios e florestas os fragmentos cristalizados de memória cultural que, como ruínas, agem, simultaneamente, sobre o cotidiano dos homens brasileiros e sobre a tarefa do intérprete da cultura, ora seduzido e enredado pela exuberância da paisagem –difundida pela palavra— ora como investigador crítico, suspeita dessas imagens.

A literatura brasileira, também feita de paisagem, volta-se sobre si mesma, expondo a consciência crítica de seu poder sobre o imaginário, através das obras de escritores e intelectuais, das primeiras décadas do século XX. Seus questionamentos produziram sulcos profundos, que se ramificaram nos dilemas e questões do narrador Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas : “Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte com as astúcias. Deus mesmo quando vier que venha armado.” Ou ainda: “Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar.”(Rosa, 1979:17-22)

E o brasileiro ainda procura, na paisagem, as marcas de seu rosto porque “o pensamento da paisagem” contaminou terras, rios, florestas e, especialmente, a alma dos homens sob os trópicos.

© Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo, 2006

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Para citar este documento: http://www.elhablador.com/dossier12_negreiros1.htm

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