Em Outrora Agora vivemos a experiência da probabilidade, tanto da história quanto do sentido do texto, e tal incerteza corrobora a tese sobre a abertura (de sentidos e significados) de uma obra literária

 

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[ Recomendamos leer ]
 

Desconocimiento del Brasil (crónica) (por Mario Granda. El Hablador Nº 4, junio de 2004)

 

 

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Por trás das letras: as palavras e os sentidos em Outrora Agora, de Augusto Abelaira

por Maria Clara Maciel

 

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Tolice ou simbologia? Ele não responde a questão, mas nos mostra que, quanto a Jerônimo, a simbologia seria coerente; fato que credita pontos à análise de nomes e nos leva a analisar outros nomes do romance, como “Filomena”, donde se pode segmentar –filo, que, segundo o Dicionário Aurélio (Ferreira: 2001), pode ser associado a 1- filó: tecido transparente tramado em forma de rede, usado sobretudo para véus (...); 2- filo: radical grego que pode significar: tribo, amigo ou amante; 3- filo: classificação geral dos organismos, subdividida em classes. Ora, tal análise também seria pertinente: Filomena enrosca Jerônimo em um atraente jogo de sedução. Ela o quer em sua rede. Pode-se dizer ainda que Filomena seria a representação da juventude, de uma nova geração sem pudores e preconceitos, mas também sem ideais. Uma nova tribo, uma nova classificação de seres humanos. Mas o raciocínio do símbolo quanto aos nomes é interrompido quando deparamos com “Cristina” (aquela que serve a Cristo), pois este nome em nada poderia ser associado às características da persona, até porque, tal personagem, em algumas passagens, chega a humanizar (para não dizer ridicularizar) a figura divina: “Apanhá-lo (Deus) em falso tornou-se uma obsessão para mim.” (162). Dessa forma, Abelaira não responde nem encerra questões, mas abre discussões quando apresenta um raciocínio inconcluso.

Praticamente o mesmo fenômeno (sugestão e pensamento inacabado) nos leva ao raciocínio da questão aberta através do terceiro fragmento:

3-Provar um ao outro, sim, um ao outro, que o Gide, o Proust, o Camus, o Charles Morgan, o Mallarmé também são literatura social.(...) Como gostávamos deles, mas acreditávamos que somente a literatura com preocupações sociais e políticas era legítima, tínhamos absolutamente de considerá-los escritores sociais. (Abelaira: 1996, 29).

O primeiro sentido a se extrair do fragmento acima diz respeito à relação existente entre a literatura e o social, e a partir daí, poderíamos dizer que Abelaira nos sugere (ou nos questiona) que a verdadeira literatura precisa abarcar o político-social, até porque a obra em análise, como as demais obras do autor, contêm teor significativo desse propósito. Mas alguns verbos estão no pretérito perfeito (acreditávamos; era), ou seja, as personagens, se pensavam assim, não pensam mais (?), -então a necessidade de a literatura levantar a bandeira das causas sociais seria questionável, o que nos leva a refletir sobre a estreiteza de relação existente entre a literatura e o social, e isso nos conduz ao conceito aristotélico da verossimilhança, ou seja, a literatura, quando verossímil, é sempre imbuída no social, já que o homem existe enquanto ser social e que todas as suas temáticas (amor, velhice, finanças, sexo, etc.) refletem esta preocupação com o homem e suas relações no mundo.

O quarto e último fragmento explicita a estratégia usada até agora (três últimas passagens) pelo Autor. Ele nos provoca e sugere análises quanto a literatura, e através dos personagens, se exime da responsabilidade pelo que é dito:

4 –Acha então que a literatura acabou? (Cristina)

–Nunca existiu, existiram somente alguns raríssimos autores – Aceitou o jogo (a discutível graça), não se propõe falar a sério. (Abelaira: 1996, 169).

Uma leitura superficial deste fragmento seria enganosa se nos sugerisse que Jerônimo desdenha a literatura atual e enaltece a de outros tempos, pois pode-se depreender que, para Jerônimo (para Abelaira), a questão não é apenas temporal: não se trata de ser a literatura atual ruim e a antiga boa, ou seja, a literatura nunca existiu (sempre foi ruim), existiram apenas raríssimos bons escritores. Ele nos sugere que o enfoque quanto à qualidade da literatura não pode ser somente temporal (todos os autores antigos bons versus todos contemporâneos ruins). É bem verdade que encontramos em Outrora Agora um intertexto que referencia sempre o passado. Mas também é verdade que as referências são sempre aos clássicos, ou seja, a exaltação não é simplesmente ao passado, mas sim aos clássicos que nele estão contidos. Acontece que sugerir que a literatura nunca tenha existido é ousado demais até para os mais ousados. E, dessa forma, além de retirar de suas costas a responsabilidade pelo que foi dito (falando através do personagem), Abelaira, camaradamente, ainda a retira dos ombros do próprio personagem, quando o narrador diz que Jerônimo não se propõe a falar a sério.

O jogo que se observa entre significante frasal e possíveis significados em Outrora Agora revela a intencionalidade de uma reflexão dos leitores por parte do autor. Abelaira nos ensina a ler a sua obra e espera que, “Jerônicamente”, esmiucemos palavras, frases e diálogos, sem contudo podermos ter certeza de nossas inferências. Somos levados a uma busca pelo livro: busca de uma certeza, de um sentido, de uma afirmação consistente que não pode ser encontrada. E, apesar disso, o texto nos seduz e nos arrasta para o fundo, como em belíssima metáfora se expressa Maria de Lourdes Ferraz:

O mágico aqui se chama Augusto Abelaira. Ele, como todos os mágicos da linguagem, sabe construir sereia de papel que encanta e seduz o leitor para aprofundar-se nas águas do texto literário, cujo leito é escorregadio e movediço. Jogos enganosos levam-no (o leitor) para o fundo em busca de um terreno firme (o sentido) que pode ou não ser encontrado, pois também este é relativo. (Ferraz, 2004).

Em Outrora Agora vivemos a experiência da probabilidade, tanto da história (tudo teria mesmo acontecido ou foi apenas um cochilo ao volante?) quanto do sentido do texto, e tal incerteza corrobora a tese sobre a abertura (de sentidos e significados) de uma obra literária, que pode ainda conter significações que podem ir além da intenção da obra e do autor, assim como explicitar preocupações ideológicas, como a de refletir sobre as palavras e a literatura, como pode se observar na obra Outrora Agora.

© Maria Clara Maciel, 2005

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Bibliografía

ABELAIRA, Augusto. Outrora agora. Lisboa: Presença, 1996.

FERRAZ, Maria de Lurdes. Artigo: Artifícios da construção textual: a representação em Outrora Agora de augusto Abelaira. In: Sexto Congresso Internacional de lusitanitas. Site: http://www.geocities.com/ail_br/artificiosdaconstrucaotextual.html.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004.

FOUCAULT, Michael. As palavras e as coisas - uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1985.

QUINET, Antônio. Artigo: A heteridade de Lacan. In: colóquio: “2001- Uma odisséia lacaniana”. Rio de Janeiro.

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Maria Clara Maciel Cursa o último ano da Faculdade de Letras da Universidade Estadual de Montes Claros, MG, Brasil. Em breve estará lançando o livro de contos Canta Conto. No momento está realizando na Inglaterra um estudo comparativo entre as habilidades de escritas de sujeitos surdos brasileiros e ingleses.

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Para citar este documento: http://www.elhablador.com/maciel.htm


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