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Tolice ou simbologia? Ele não responde a questão,
mas nos mostra que, quanto a Jerônimo, a simbologia
seria coerente; fato que credita pontos à análise
de nomes e nos leva a analisar outros nomes do romance,
como “Filomena”, donde se pode segmentar
–filo, que, segundo o Dicionário Aurélio
(Ferreira: 2001), pode ser associado a 1- filó:
tecido transparente tramado em forma de rede, usado
sobretudo para véus (...); 2- filo:
radical grego que pode significar: tribo, amigo ou amante;
3- filo: classificação geral dos organismos,
subdividida em classes. Ora, tal análise também
seria pertinente: Filomena enrosca Jerônimo em
um atraente jogo de sedução. Ela o quer
em sua rede. Pode-se dizer ainda que Filomena seria
a representação da juventude, de uma nova
geração sem pudores e preconceitos, mas
também sem ideais. Uma nova tribo, uma nova classificação
de seres humanos. Mas o raciocínio do símbolo
quanto aos nomes é interrompido quando deparamos
com “Cristina” (aquela que serve a Cristo),
pois este nome em nada poderia ser associado às
características da persona, até porque,
tal personagem, em algumas passagens, chega a humanizar
(para não dizer ridicularizar) a figura divina:
“Apanhá-lo (Deus) em falso tornou-se
uma obsessão para mim.” (162). Dessa forma,
Abelaira não responde nem encerra questões,
mas abre discussões quando apresenta um raciocínio
inconcluso.
Praticamente
o mesmo fenômeno (sugestão e pensamento
inacabado) nos leva ao raciocínio da questão
aberta através do terceiro fragmento:
3-Provar
um ao outro, sim, um ao outro, que o Gide, o Proust,
o Camus, o Charles Morgan, o Mallarmé também
são literatura social.(...) Como gostávamos
deles, mas acreditávamos que somente
a literatura com preocupações sociais
e políticas era legítima, tínhamos
absolutamente de considerá-los escritores sociais.
(Abelaira: 1996, 29).
O
primeiro sentido a se extrair do fragmento acima diz
respeito à relação existente entre
a literatura e o social, e a partir daí, poderíamos
dizer que Abelaira nos sugere (ou nos questiona) que
a verdadeira literatura precisa abarcar o político-social,
até porque a obra em análise, como as
demais obras do autor, contêm teor significativo
desse propósito. Mas alguns verbos estão
no pretérito perfeito (acreditávamos;
era), ou seja, as personagens, se pensavam assim,
não pensam mais (?), -então a necessidade
de a literatura levantar a bandeira das causas sociais
seria questionável, o que nos leva a refletir
sobre a estreiteza de relação existente
entre a literatura e o social, e isso nos conduz ao
conceito aristotélico da verossimilhança,
ou seja, a literatura, quando verossímil, é
sempre imbuída no social, já que o homem
existe enquanto ser social e que todas as suas temáticas
(amor, velhice, finanças, sexo, etc.) refletem
esta preocupação com o homem e suas relações
no mundo.
O
quarto e último fragmento explicita a estratégia
usada até agora (três últimas passagens)
pelo Autor. Ele nos provoca e sugere análises
quanto a literatura, e através dos personagens,
se exime da responsabilidade pelo que é dito:
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–Acha então que a literatura acabou?
(Cristina)
–Nunca
existiu, existiram somente alguns raríssimos
autores – Aceitou o jogo (a discutível
graça), não se propõe falar a
sério. (Abelaira: 1996, 169).
Uma
leitura superficial deste fragmento seria enganosa se
nos sugerisse que Jerônimo desdenha a literatura
atual e enaltece a de outros tempos, pois pode-se depreender
que, para Jerônimo (para Abelaira), a questão
não é apenas temporal: não se trata
de ser a literatura atual ruim e a antiga boa, ou seja,
a literatura nunca existiu (sempre foi ruim),
existiram apenas raríssimos bons escritores.
Ele nos sugere que o enfoque quanto à qualidade
da literatura não pode ser somente temporal (todos
os autores antigos bons versus todos contemporâneos
ruins). É bem verdade que encontramos em Outrora
Agora um intertexto que referencia sempre o passado.
Mas também é verdade que as referências
são sempre aos clássicos, ou seja, a exaltação
não é simplesmente ao passado, mas sim
aos clássicos que nele estão contidos.
Acontece que sugerir que a literatura nunca tenha existido
é ousado demais até para os mais ousados.
E, dessa forma, além de retirar de suas costas
a responsabilidade pelo que foi dito (falando através
do personagem), Abelaira, camaradamente, ainda a retira
dos ombros do próprio personagem, quando o narrador
diz que Jerônimo não se propõe
a falar a sério.
O
jogo que se observa entre significante frasal e possíveis
significados em Outrora Agora revela a intencionalidade
de uma reflexão dos leitores por parte do autor.
Abelaira nos ensina a ler a sua obra e espera que, “Jerônicamente”,
esmiucemos palavras, frases e diálogos, sem contudo
podermos ter certeza de nossas inferências. Somos
levados a uma busca pelo livro: busca de uma certeza,
de um sentido, de uma afirmação consistente
que não pode ser encontrada. E, apesar disso,
o texto nos seduz e nos arrasta para o fundo, como em
belíssima metáfora se expressa Maria de
Lourdes Ferraz:
O
mágico aqui se chama Augusto Abelaira. Ele,
como todos os mágicos da linguagem, sabe construir
sereia de papel que encanta e seduz o leitor para
aprofundar-se nas águas do texto literário,
cujo leito é escorregadio e movediço.
Jogos enganosos levam-no (o leitor) para o fundo em
busca de um terreno firme (o sentido) que pode ou
não ser encontrado, pois também este
é relativo. (Ferraz, 2004).
Em
Outrora Agora vivemos a experiência da
probabilidade, tanto da história (tudo teria
mesmo acontecido ou foi apenas um cochilo ao volante?)
quanto do sentido do texto, e tal incerteza corrobora
a tese sobre a abertura (de sentidos e significados)
de uma obra literária, que pode ainda conter
significações que podem ir além
da intenção da obra e do autor, assim
como explicitar preocupações ideológicas,
como a de refletir sobre as palavras e a literatura,
como pode se observar na obra Outrora Agora.
©
Maria Clara Maciel, 2005
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Bibliografía
ABELAIRA,
Augusto. Outrora agora. Lisboa: Presença,
1996.
FERRAZ,
Maria de Lurdes. Artigo: Artifícios da construção
textual: a representação em Outrora Agora
de augusto Abelaira. In: Sexto Congresso Internacional
de lusitanitas. Site: http://www.geocities.com/ail_br/artificiosdaconstrucaotextual.html.
FERREIRA,
Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário
Aurélio de Língua Portuguesa. Curitiba:
Positivo, 2004.
FOUCAULT,
Michael. As palavras e as coisas - uma arqueologia
das ciências humanas. São Paulo: Martins
Fontes, 1985.
QUINET,
Antônio. Artigo: A heteridade de Lacan.
In: colóquio: “2001- Uma odisséia
lacaniana”. Rio de Janeiro.
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